Depois de décadas no crime, Messias tenta reconstruir a vida com trabalho e fé
Após 22 anos no sistema prisional, ex-dependente químico busca reconstruir a vida com trabalho, fé e um novo propósito.

Às margens do Rio Peixoto, em Peixoto de Azevedo, a nossa equipe de reportagem encontrou Messias Garcia Taques trabalhando como pedreiro em pleno feriado de Carnaval. Ao meio-dia, com o sol forte e o som do rio ao fundo, ele aceitou contar uma história marcada por dor, escolhas difíceis e, agora, recomeço.
Aos 48 anos, Messias fala com clareza sobre o passado. Segundo ele, o contato com as drogas começou cedo, aos nove anos de idade, ainda em Vilhena (RO), onde viveu parte da infância. “Foi a maconha. Ali começou tudo”, relembra. A adolescência foi atravessada pelo envolvimento com o crime e, aos 17 anos, ele cumpriu a primeira pena.
No total, foram 22 anos no sistema prisional, passando por diferentes unidades. “Hoje não devo nada para a Justiça”, afirma. Ele diz que a mudança começou ainda dentro da prisão, onde se aproximou da fé e decidiu buscar uma nova direção para a própria vida.

Quatro meses em recuperação
Messias se define como dependente químico em recuperação. Está há quatro meses sem usar drogas. “Hoje meu vício é o cigarro e o café. Nem bebida eu bebo”, conta. Ele reconhece que a luta é diária, mas afirma que encontrou na espiritualidade e no trabalho os pilares para seguir em frente.
Atualmente, mora com familiares em Mato Grosso e trabalha como pedreiro na região. Recebe cerca de R$ 200 por diária e diz ter orgulho do que constrói. “Antes eu andava nas madrugadas, na escuridão. Hoje eu ando na luz, trabalho de dia e descanso à noite”, resume.
Durante a conversa, ele mostrou a obra em que atua: tijolos alinhados, estrutura sendo finalizada e planos de ampliar a construção. O sonho agora é simples e direto: comprar a própria motocicleta e continuar trabalhando de forma digna.
Um recado à juventude
Ao final da entrevista, Messias deixou uma mensagem aos jovens. Para ele, muitos acabam iludidos por escolhas precipitadas e pela falsa ideia de que não haverá consequências. “A gente colhe o que planta. Eu estou colhendo o que plantei no passado, mas agora estou plantando o bem”, afirma.
Ele também defende a valorização da família e do diálogo dentro de casa. “Precisamos voltar à base, à família, ter dignidade na sociedade e acreditar que é possível mudar a própria história.”
A trajetória de Messias é marcada por erros, perdas e consequências duras. Mas, às margens do Rio Peixoto, entre tijolos e cimento, ele tenta escrever um novo capítulo — um dia de cada vez.
