Enchentes em Guarantã do Norte expõem problema histórico e levantam debate sobre responsabilidade
Situação se arrasta há décadas, envolve ocupação de áreas baixas e exige soluções estruturais além da pavimentação

As recentes enchentes em Guarantã do Norte voltaram a reacender um debate antigo: é possível resolver, em poucos anos, um problema que vem se acumulando há décadas?
A discussão vai além da gestão atual. “Não temos procuração para defender ninguém.” O fato é que qualquer administrador precisa apresentar soluções. Mas a pergunta que ecoa é: Seria viável resolver, em um, dois ou até quatro anos, uma situação construída ao longo de tanto tempo?
Nos grupos de WhatsApp e nas rodas de conversa, cada autoridade aponta um caminho diferente. Há legisladores que acompanham o problema há quase duas décadas e veem as enchentes apenas mudarem de endereço.
Histórico de alagamentos
Em 2018, por exemplo, houve registros de alagamentos na região do Ouro Verde, no bairro Aliança e também às margens da BR, onde estabelecimentos e residências foram atingidos. O cenário se repetiu em diferentes pontos da cidade ao longo dos anos.
Atualmente, um dos trechos mais afetados é a Avenida Dante Martins de Oliveira, que liga o bairro Aeroporto ao Ecoparque. As marcas da água ainda podem ser vistas em muros, calçadas e no asfalto recém-seco. Em alguns pontos, a força da enxurrada deixou rastros evidentes.
O problema, porém, vai além da chuva intensa.
Ocupação de áreas baixas e falta de planejamento
A região afetada é naturalmente baixa. Recebe água de diferentes pontos, inclusive de córregos que deságuam em rios maiores, seguindo seu curso natural até bacias como a do Tapajós e, posteriormente, o Amazonas. A água sempre buscará o caminho mais baixo.
Ao longo das décadas, construções foram surgindo nessas áreas: casas próximas ao leito de córregos, galpões, igrejas e até moradias praticamente dentro de regiões que funcionam como escoamento natural. Muitas dessas ocupações ocorreram sem aterro adequado.
Asfalto resolve?
Parte da população cobra pavimentação como solução imediata. De fato, o asfalto melhora a mobilidade e reduz a lama. Porém, pavimentar sem resolver o sistema de drenagem pode até agravar o problema, já que a água deixa de infiltrar e escoa com mais rapidez para pontos ainda mais baixos.
Alargar um trecho de córrego também pode não ser suficiente se o restante da bacia continuar estreito ou ocupado. Para ampliar a vazão, seria necessário intervir em áreas já consolidadas — o que levanta outro impasse: como ficariam os moradores que vivem ali há 20, 30 anos? Haveria desapropriação? Indenização? Realocação?
São decisões complexas, que envolvem leis municipais, planejamento urbano e impacto social.

Responsabilidade compartilhada
Outro ponto levantado é o papel do poder público ao longo do tempo. Quando as primeiras construções surgiram em áreas sensíveis, houve fiscalização? O loteamento foi analisado considerando drenagem, áreas de preservação permanente (APPs) e risco de enchente?
Hoje, quando a água invade ruas e residências, a cobrança recai sobre a prefeitura. E, de fato, o município precisa agir. Mas a raiz do problema envolve décadas de crescimento urbano sem planejamento de médio e longo prazo.
Um problema estrutural
A paisagem pode parecer tranquila em períodos secos, mas as estações chuvosas retornam todos os anos — algumas com mais intensidade que outras. E, enquanto o debate se resume a soluções pontuais, a estrutura urbana continua pressionada.
A pergunta que permanece é: o que precisa ser feito para que o problema seja tratado de forma definitiva?
Asfalto é necessário. Drenagem é essencial. Planejamento urbano é indispensável. Mas resolver a equação exige estudo técnico, diálogo com moradores, decisões políticas firmes e, sobretudo, responsabilidade compartilhada.
Em meio às críticas e cobranças, uma certeza se impõe: o desafio é maior do que aparenta — e a solução passa por entender que o problema não começou ontem.