Terras indígenas de MT perderam até 75% da água em 40 anos, revela estudo

Levantamento com dados do MapBiomas mostra redução de 55% da superfície de água nas terras indígenas da bacia do Alto Juruena. Na Terra Indígena Tirecatinga, mudanças no clima já afetam a pesca, a agricultura, a caça e até o acesso à água potável

Terras indígenas de MT perderam até 75% da água em 40 anos, revela estudo

Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

As terras indígenas da bacia do Alto Juruena, em Mato Grosso, perderam mais da metade da superfície de água nas últimas quatro décadas. Um levantamento da InfoAmazonia, com base em dados do MapBiomas Água, aponta que a redução foi de 55% entre 1985 e 2025, cenário que já provoca impactos diretos na rotina das comunidades indígenas, desde a produção de alimentos até o abastecimento de água.

A situação é ainda mais preocupante na Terra Indígena Tirecatinga, localizada em Sapezal, onde vivem povos Nambikwara, Terena, Manoki e Haliti. No território, a superfície ocupada por rios, lagoas e outros corpos d’água diminuiu 75% no período, uma perda de 283 hectares, tornando a área uma das cinco terras indígenas mais afetadas em toda a bacia do Alto Juruena.

As mudanças já são percebidas pelos moradores. Nos últimos anos, o verão passou a ser marcado por tempestades mais intensas, com ventos fortes e grande incidência de raios, aumentando o risco de incêndios. O calor também ficou mais intenso, dificultando a caça, alterando o comportamento dos peixes e favorecendo a proliferação de mosquitos, com reflexos no aumento de casos de dengue.

Já durante o período seco, a situação também mudou. O inverno ficou mais curto, sem geadas e com menos chuvas. Lagoas nas cabeceiras secaram, nascentes mudaram de lugar e o calendário tradicional da agricultura precisou ser adaptado. O plantio, que antes começava em setembro, passou para dezembro, enquanto frutas nativas, como jabuticaba e bacaba, passaram a amadurecer mais tarde.

Perda de água avança nas terras indígenas

O levantamento mostra que toda a bacia do Alto Juruena perdeu cerca de 14% da superfície média de água entre 1985 e 2025, passando de 23.460 para 20.267 hectares. Dentro das terras indígenas, porém, a redução foi muito mais severa: a área ocupada por corpos d’água caiu de 7.175 para apenas 3.233 hectares, uma diminuição de 55%.

Segundo a análise, a queda se intensificou a partir dos anos 2000, período que coincide com a expansão da produção de commodities agrícolas e do cultivo de soja em Mato Grosso.

Ao mesmo tempo, a agropecuária avançou sobre aproximadamente metade da vegetação nativa da bacia entre 1985 e 2024, transformando cerca de 2,2 milhões de hectares em áreas agrícolas e pastagens.

O Primeira Página procurou Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) para comentar sobre os impactos da agropecuária na vegetação apontados no estudo, que informou que irá ler o documento e levantar dados para poder elaborar uma análise.

Cabeceiras secaram e animais desapareceram

Com quatro anos seguidos de secas extremas desde 2020, moradores relatam que lagoas desapareceram, nascentes migraram centenas de metros e córregos perderam volume.

Na aldeia, os impactos vão além da falta de água. Animais importantes para a alimentação das famílias passaram a aparecer com menos frequência, reduzindo a oferta de caça.

Durante a pandemia da Covid-19, essa mudança também evidenciou outro problema: a crescente dependência dos alimentos comprados na cidade de Sapezal, localizada a cerca de 60 quilômetros da aldeia mais próxima.

Além disso, o calor extremo passou a comprometer o cultivo tradicional. Segundo relatos das lideranças indígenas, em alguns casos a mandioca chegou a estragar ainda debaixo da terra devido às temperaturas elevadas.

Calendário ecológico virou ferramenta de adaptação

Diante das mudanças, representantes dos povos da Terra Indígena Tirecatinga se reuniram no fim de 2024 para registrar como o clima passou a interferir no cotidiano da comunidade.

O resultado foi a criação do Calendário Ecológico de Tirecatinga, elaborado pela associação de mulheres Thutalinãnsu com apoio da Operação Amazônia Nativa (Opan) e da Rede Juruena Vivo.

O documento reúne conhecimentos tradicionais sobre o comportamento das chuvas, rios, animais, plantas e períodos de plantio. O material servirá de base para o novo Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da terra indígena e também para reivindicar políticas públicas voltadas à adaptação às mudanças climáticas.

Nos últimos meses, representantes da comunidade passaram a apresentar o calendário em eventos dentro e fora de Mato Grosso. O instrumento já despertou interesse de outros povos indígenas, como Kurâ-Bakairi, Rikbaktsa e Manoki, que estudam adotar metodologia semelhante em seus territórios.

Comunidade pede ações para enfrentar novas secas

Em maio deste ano, lideranças indígenas levaram o calendário ecológico à Câmara Municipal de Sapezal e apresentaram uma série de reivindicações ao poder público.

Entre as prioridades estão a construção de moradias mais resistentes às tempestades, a perfuração de poços artesianos para garantir água potável durante os períodos de estiagem e ações para fortalecer a produção de alimentos tradicionais.

Enquanto aguardam novas políticas públicas, a comunidade já iniciou projetos de recuperação da agricultura familiar com apoio da Empaer, recebendo mudas de espécies tradicionais e assistência técnica para adaptar as roças às novas condições climáticas.

A associação Thutalinãnsu também participa atualmente do Fórum de Mudanças Climáticas de Mato Grosso e mantém parceria com universidades federais para estudar o valor nutricional das frutas silvestres da região, buscando fortalecer a segurança alimentar das famílias indígenas.

Fonte: gcnoticias

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